quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ao Oscar com: OS MISERÁVEIS

Hoje falo da adaptação da obra de Victor Hugo, Os Miseráveis (Les miserábles, 2012). O escritor contou a seguinte história:
Próximo a Revolução Francesa do século XIX, Jean Valjean (Hugh Jackman) rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e acaba sendo preso por isso. Solto tempos depois, ele recebe uma segunda chance de se redimir e se reinventar para fugir da perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe). Seu caminho se cruza com o da desesperada Fantine (Anne Hathaway) e toda sua vida muda quando ele promete cuidar de sua filha, Cosette.

Tive a sorte (e o enorme prazer) de conhecer esta obra-prima através da montagem na Broadway. Dessa forma, tudo era familiar... mesmo assim... a emoção fluiu em cada música, cada momento, cada lembrança. Fico muito feliz de saber que ainda me arrepio com música e que ainda sou tocado pela arte. Isso me sublima.

Dito isto vamos às considerações. As reclamações ao filme são inúmeras, porque ele é totalmente musical, ou seja, sem quaisquer diálogos. Talvez os incautos não tenham entendido que o filme é uma adaptação do que foi feito na Broadway, e não ao livro, e por isso tenham saído injuriados.

Alguns que viram a magnânima peça também reclamaram da linguagem. Ora... são duas mídias diferentes! Claro que tinha que ser diferente! No teatro, temos acesso visual a tudo com destaque para a iluminação, ou seja, quando alguém canta você vê o ator inteiro e a parte do cenário que está iluminada. Quando temos dois ou mais cantores em cena, podemos ver tudo ou escolher o que ver e ouvir. No cinema, não: nós vemos o que o diretor quer. A saída de Tom Hooper foi dar um close nos atores em seus momentos musicais, como se fosse a iluminação do teatro que faz todo o foco ficar em cima deles. Em caso de cenas de ação, duetos ou mais cantores ficamos a mercê das decisões da direção (e às vezes ficamos sem saber quem está cantando. Mas não é assim no teatro?).

Isso é ruim, então? Acho que não. Isso dá aos atores um potencial dramático único. Hugh Jackman (que já ganhou prêmios como cantor da Broadway) consegue ficar irreconhecível e se distancia de seus papéis de galã de ação. Anne Hathaway só precisou de uma música (e que música! Que cena!) pra ser indicada a todos os prêmios do cinema americano e (se não me engano) levá-los pra casa. Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen (isso mesmo... o Borat!) dão o alívio cômico sem se perder na força dramática da história.

Não sei se o filme irá levar muito mais do que o prêmio de Anne Hathaway - e alguns prêmios técnicos -, porque esse filme é, na verdade, a música. Impossível não querer entrar para a resistência francesa com todos aqueles incríveis hinos (e com o esperto Gavroche) ou se apiedar da on-my-own Eponine. Até o fraco Russell Crowe (aliás... era ele mesmo cantando?) e a acima-do-tom Amanda Seyfried são salvos pela música.

Repetirei quantas vezes for necessário: a música é sublime e a arte é capaz de nos salvar de nós mesmo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ao Oscar com: O LADO BOM DA VIDA

Hoje vamos saber mais sobre o ótimo O lado bom da vida (Silver linings playbook, 2012). Como de praxe, primeiro a história:
Por conta de algumas atitudes agressivas, Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) perdeu tudo na vida: sua casa, o emprego e o casamento. Depois de passar um tempo internado em um hospital psiquiátrico, ele retorna para a casa de seus pais, decidido a reconstruir sua vida, passando por cima do passado recente, até reconquistar a ex-esposa. Embora seu temperamento ainda inspire cuidados, um casal amigo o convida para jantar e ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem viúva também problemática. Ambos iniciam uma amizade que provoca mudanças significativas em seus planos futuros.
Adoro quando vou ao cinema sem quaisquer expectativas e saio supreendido! Avaliado como drama, o filme deveria ser classificado como tragicomédia romântica. É duro ver todo o cinema rindo - inclusive você! - das situações difíceis que os personagens passam. Parece quando rimos assim que alguém cai da cadeira... não deveria ser engraçado!

Neste filme percebemos que todo mundo tem problemas, mas são os considerados problemáticos que possuem a probabilidade de se tornarem pessoas melhores. Os "normais" vivem conformados em suas insatisfações, suas inseguranças e suas manias sem saber (nem se dar conta de) como sair disso.

E o filme ainda tem Jennifer Lawrence roubando TODAS as cenas! Mesmo quando ela está frente a frente com Robert De Niro! Aliás, a melhor cena é quando ela dobra o ator. Seu Oscar seria garantido se a concorrência não estivesse tão equilibrada, mas ela andou ganhando praticamente tudo que disputou, então, a chance é grande. De Niro e Cooper devem ficar felizes por suas indicações e só. Como o filme foi produzido pelos pelos papa-títulos dos irmãos Weinstein, tem gente apostando na vitória final. Se ganhar será ótimo, mas acho difícil porque existem algumas inconsistências e fortes concorrentes.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ao Oscar com: DJANGO LIVRE

Hoje falarei sobre o faroeste de Tarantino, Django Livre (Django unchained, 2012). Primeiro, a história:
Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do pouco ortodoxo Dr. King Schultz (Christoph Waltz). O alemão compra Django com a promessa de libertá-lo quando tiver capturado seus torturadores, vivos ou mortos. Missão completa, Schultz transforma Django em um caçador de recompensas, tendo como objetivo principal encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), sua esposa, que ele não vê desde que ela foi adquirida por outros proprietários, há muitos anos. Sua busca os leva a Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o dono de uma plantação famosa que treina os escravos locais para lutar. A partir daí, o cerco toma forma e são feitas escolhas entre independência e solidariedade, sacrifício e sobrevivência.

Antes de assistir esse filme, é preciso entender Tarantino, pois o filme tem todos os clichês do diretor. Quando vi a primeira parte de Kill Bill (Kill Bill: vol. 1, 2003) no cinema, eu ri horrores com todo o sangue esguichado porque sabia das homenagens que estavam sendo feitas. Mas depois de ver Bastardos Inglórios (Inglourious basterds, 2009) e Django, fica-se a certeza que Tarantino criou um "estilo" cinematográfico próprio: da vingança sanguinolenta (ou estaria ele ficando repetitivo? Será que devemos esperar uma vingança sanguinolenta em ficção científica espacial?).

Bom... o filme não é pra qualquer um. Nenhuma atuação consegue se destacar porque Tarantino é quem aparece. Ele é o filme. Aliás, um filme longo demais, mas que não poderia ser mais editado ou não seria Tarantino. Inclusive acho que Christoph Waltz deveria se afastar um tempo dele, porque, depois de ganhar o Oscar com seu excelente nazista, seu doutor (também alemão) caiu na mesmice.

Agora venho me retificar: apenas um ator aparece e ele se chama Samuel Jackson, o arroz de festa de Hollywood. Há alguns anos, Jackson decidiu participar de todos os filmes possíveis porque gosta de trabalhar. Assim entrou para os novos Guerra nas Estrelas (como o jedi Mace Windu) e para os filmes da Marvel (como o diretor Nick Fury), entre muito outros filmes que podem ter suas qualidades questionadas. Mas o talento do ator não. Seja protagonista ou coadjuvante, Jackson se entrega ao personagem da forma que o diretor pede: caricato e polêmico.

Pra mim, o filme sai de mãos vazias ou com prêmios técnicos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ao Oscar com: ARGO

No próximo domingo teremos a entrega do Oscar. Por essa razão, farei postagens rápidas sobre alguns filmes que estão na disputa de alguma categoria. Já falei sobre As Aventuras de Pi (The life od Pi, 2012), e hoje falarei sobre Argo (2012).

A história:
1979. O Irã está em ebulição, com a chegada ao poder do aiatolá Khomeini e oasilo político que os EUA garantiram ao antigo xá opressor. Nas ruas de Teerã, diversos protestos contra os americanos. Um deles acontece em frente à embaixada do país, que acaba invadida, mas seis diplomatas americanos conseguem escapar do local e se refugiam na casa do embaixador canadense. Lá eles vivem durante meses, sob sigilo absoluto, enquanto a CIA busca um meio de retirá-los do país em segurança. A melhor opção é apresentada por Tony Mendez (Ben Affleck), um especialista em exfiltrações, que sugere que uma produção de Hollywood seja utilizada como fachada para a operação. Aproveitando o sucesso de filmes como "Guerra nas Estrelas" e "A Batalha do Planeta dos Macacos", a ideia é criar um filme falso, a ficção científica Argo, que usaria as paisagens desérticas do Irã como locação. O projeto segue adiante com a ajuda do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), que conhecem bem como funciona Hollywood.

Sinceramente fui esperando muito pouco do filme, pois confesso que não sou muito fã dessas reconstruções políticas internacionais (sou mais ficção e conspiração) e não acreditava na veracidade da história. No entanto, com um elenco excelente e uma direção superba de Ben Affleck, o filme me impressionou bastante. Em determinado momento do filme, a situação está tão tensa que não se ouvia respirações no cinema. Quando a situação se resolveu, foram inúmeros suspiros de alívio e pessoas se acomodando em suas cadeiras.

Andei lendo que a academia esnobou um pouco esse filme e não o indicou para prêmios importantes. Lamentável, pois mesmo não acreditando na veracidade da história, me interessei muito mais por esse filme do que por Lincoln (que deve ganhar tudo... afinal... é o "grande presidente americano" na telona). Porém, Argo e Ben Aflleck ganharam praticamente tudo que concorreram até agora! Dos competidores ao melhor filme, esse ganha o meu voto.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Cores rotuladas

Toda cor tem um significado: vermelho é fogo; verde é natureza; o céu é azul; e assim vai. Enquanto algumas das associações são feitas diretamente pela visualização de objetos e fenômenos naturais, outras são criadas pela sociedade, como a psicologia das cores que nos diz que vermelho é paixão, branco é paz e laranja abre o apetite. É claro que isso vai gerando padrões visuais tão enraizados na cultura que fica até difícil de se perguntar porque essa cor representa isso e não aquilo? Por exemplo, se o planeta é 2/3 de água e ainda temos tudo envolto por céu azul, por que pensamos no verde para ecologia?

Como designer, as características das cores são de suma importância, pois alteram a percepção do que se cria. Veja um caso: conheço um profissional que fez uma embalagem de filme para microondas com as cores vermelha e amarela porque são cores quentes (esquentar comida) e juntas formam laranja (que abre o apetite). No entanto, o cliente queria usar o verde porque a embalagem era de papel reciclado. O profissional lutou contra isso porque não há nada ecológico em plástico de microondas e muito menos em papel reciclado*. Esse é apenas um caso entre vários que poderiam ser contados.

E uma coisa que sempre me intrigou são as cores formadores de gênero, ou seja, as masculinas e femininas. Por que meninos tem que usar azul e meninas tem que usar rosa - principalmente quando bebês? Pra mim isso sempre foi uma orientação (determinação) sexual velada da sociedade, mas nunca soube da origem disso, mesmo que tivesse alguns palpites. Agora finalmente consegui algum embasamento teórico! E antes de entrar nisso, vejam esse vídeo POR FAVOR! É rapidinho e dá pra ativar legendas em português.



É ou não é orientação velada?

Encarte de moda de 1928
Bom... a colunista Laila Razzo do Jornal Pequeno de São Luís parece ter feito uma extensa pesquisa sobre o assunto, inclusive descobrindo que antes era o contrário! Isso mesmo... meninos tinham que usar rosa e mulheres azul! Ela traz informações que eu não sabia, como a influência do Cristianismo na mudança das cores de gênero, tanto de antes (quando vermelho era uma cor masculina denominada aos cardeais e o azul destacava a pureza da Virgem Maria) quanto no atual (azul é a cor do céu que protegia os meninos por causa da sucessão familiar, enquanto o vermelho era a cor dos demônios e das mulheres tentadoras).

Laila também aborda o já conhecido papel do marketing (É recorrente a utilização de símbolos específicos pela mídia a fim de valorizar minorias, mesmo que em campo abstrato de ideias, dando-lhes identidade em força consumidora.) e das guerras mundiais (Nos primeiros estágios após a II Guerra Mundial, a população passou a ser bombardeada pela publicidade de um mercado que enxergou o potencial de direcionamento de seus anúncios por cores representativas de gênero).


Infelizmente o texto dela saiu do ar depois da reformulação do jornal, mas destaco aqui partes interessantes:
"(...) Revestido de um interesse único pela diferenciação dos nenéns e guris fêmea e macho, já que não dá pra dizer quem é o quê nessa época da vida (e como se importasse tanto), pintaram elas de rosa e eles de azul. O costume causa um desconforto danado quando se vê um bebê de macacãozinho amarelo, que gafe horrorosa chamar ele de ela ou ela de ele, tirando que a mãe ou o pai vão se sentir mortalmente ofendidos. Pior que nem dá pra disfarçar com um 'Qual é o nome?', porque ficar sem falar 'dele' ou 'dela' já aparenta uma coisificação do serzinho. Piora quando respondem um nome unissex. Quanto desconforto por um costumezinho 'inofensivo'!"

"O problema não é a cor, e sim os valores sociais que as embalagens, bonecas, panelinhas e pôneis transmitem nessa roupagem. O conceito vendido do que é ser mulher e também do que é ser homem, enraizados desde muito cedo no inconsciente."

"É certo que o ser humano desde muito jovem já procura se encaixar como parte de grupos, um dos primeiros é a orientação e divisão de gênero, principalmente por haver uma diferença explícita no que meninos e meninas são levados a entrar em contato. Com uma sociedade pautada na identidade pelo que se consome e a necessidade de pertencer e se conectar, pouquíssimos meninos e meninas passarão impunes de olhares reprovativos e provocação de seus iguais (após terem a noção dessa divisa de gêneros em objetos e brincadeiras – já foi observado que crianças são livres de pré-conceitos de gênero no início da infância), educadores e outros adultos por terem preferências de vestuário, brinquedos e cores não tradicionais e incomuns ao seu sexo, ou por seus pais assim escolherem educá-los."
O texto era muito bom. Pena que saiu do ar. Tem um outro no Portal da Família, que também oferece informações contextualizadoras interessantes.

Precisamos nos lembrar que um arco-íris é um belíssimo fenômeno ótico antes de nos preocuparmos com qualquer simbologia de gênero. Precisamos nos lembrar que é a sociedade que dá rótulos e não as cores.

* Papel reciclado simplesmente é mais danoso ao ambiente do que o papel comum porque precisa de um número enorme de produtos químicos para retirar as impurezas antes de virar um papel utilizável. O correto seria utilizar papel de madeira de reflorestamento.